Eu tinha por volta de oito anos. Ganhei meu primeiro diário. Foi um presente da minha mãe. Algum tempo atrás eu cheguei a pensar como e por que alguém daria um diário para uma criança dessa idade. A grande maioria das crianças, nessa idade, não pensa, não quer ou não deseja escrever coisas do cotidiano, muito menos pensamentos! É mais fácil elas desejarem falar. Mas escrever mesmo é algo mais peculiar.
            Antes do diário, lembro que eu estava sempre desenhando, rabiscando, pintando, imagens ou letras. Tudo muito infantil, mas lembro do meu esforço e concentração em querer fazer o melhor. As atividades e os cadernos das séries escolares passadas eram sempre guardados para rever, folhear, rabiscar ou pintar. Até hoje tenho muitas atividades escolares guardadas. Amo ver a minha letra de criança e observar a sua evolução.
            Mas eis que um dia eu ganho um “caderno”, pequeno, com uma capa colorida e com folhas em cor! Achei isso o máximo: páginas coloridas! Olhei o “caderno”, curti, folheei as páginas, mas até então não sabia ao certo para que ele serviria além de desenhar, rabiscar e pintar, por mais que a minha mãe já tivesse dito: “É um diário”. Mas eu não sabia o que escrever e como escrever naquele “caderno” chamado diário. Até que minha mãe continua, dizendo algo parecido: “Depois a gente escreve”.
            Nesse tempo, morávamos em uma espécie de pensionato: existiam os quartos amplos (acredito que eram apenas quatro quartos no máximo), e em cada um morava uma pessoa (no nosso caso, éramos três: eu, minha mãe e meu irmão). Também tinha uma espécie de sala ou área bem grande e, em seguida, uma varanda.
            Lembro, com muito carinho, de como eu gostava de morar naquele lugar. Os moradores eram legais, a dona do lugar também e eu amava brincar ou simplesmente ficar nessa área grande, que ficava logo à frente do quarto onde eu morava. Um dos meus melhores aniversários foi nesse lugar, cujo tema era “Bailarina” e tudo feito pela minha mãe com a maior criatividade possível. As fotos comprovam! Foi um dia feliz com minha família e amigos naquela grande área.
            Nessa espécie de sala ou área grande, tinha uma mesa com algumas cadeiras. Eu gostava de sentar ali e fazer as atividades escolares, jogar, ou apenas rabiscar e pintar. E foi nesse mesmo local que, um dia, minha mãe me ensinou para que servia um diário e como eu deveria escrever nele. Lembro exatamente da cena: ela sentada ao meu lado, o diário aberto e um lápis. A orientação dela foi que eu escrevesse tudo o que eu tinha feito, visto ou sentido naquele dia. E, antes de escrever tudo isso, eu deveria escrever o nome da cidade, a data, o mês e o ano. Era como se fosse uma carta. De mim para mim.
            E esse talvez tenha sido o incentivo mais significativo para o meu gosto pela escrita. Se fosse possível ver o filme da minha vida, desde os primeiros anos, seria mais do que certa a conclusão de que eu me inclinaria ao mundo da escrita, da leitura, dos rabiscos e pinturas, justamente por apresentar, desde pequena, afinidade com essas atividades. No entanto, também é mais do que certo que se não houvesse o incentivo (não apenas na questão da escrita), o potencial e a busca pelo aprimoramento jamais teriam sido desenvolvidos ao longo do tempo de forma tão contínua.
            Há quem veja o diário como algo bobo, inocente ou perca de tempo, algo típicos das pessoas que vivem no mundo da imaginação. Mas, para mim, ao longo do tempo, o diário ultrapassou todos esses limites. Naquele dia, minha mãe estava me incentivando a escrever, a praticar a escrita. Mas talvez ela não soubesse que ela estava me ensinando muito mais que isso. Ela estava me ensinando a alcançar a liberdade. A desafogar a alma. Porque com os meus diários, é assim que me sinto: livre. Obrigada, mãe, por ter me dado um amigo e um caminho libertário: o diário.
Thais Samara de Castro Bezerra